O Mito de Perséfone: Uma Jornada de Descida ao Submundo

O Mito de Perséfone: Uma Jornada de Descida ao Submundo

Perséfone, deusa das ervas, flores e frutos era filha de Deméter, a deusa da agricultura e fertilidade, e de Zeus, o rei dos deuses. Ela vivia em harmonia com sua mãe, sendo admirada pelos deuses por sua beleza e inocência. Certo dia, enquanto colhia flores nos campos, Perséfone foi raptada por Hades, seu tio, e deus do submundo, que havia se apaixonado por ela. Hades a levou para o submundo para torná-la sua esposa.

Deméter, ao perceber o desaparecimento da filha, ficou devastada e iniciou uma busca incansável. Durante esse tempo, ela negligenciou suas funções como deusa da agricultura, fazendo com que a terra se tornasse estéril e a humanidade sofresse com a fome.

Zeus, preocupado com o impacto da ira de Deméter sobre o mundo, decidiu intervir e enviou Hermes, o mensageiro dos deuses, ao submundo para negociar o retorno de Perséfone.

No entanto, antes de libertá-la, Hades deu a Perséfone sementes de romã para comer. Segundo as leis divinas, quem comesse algo no submundo ficaria preso a ele. Como Perséfone havia comido seis sementes de romã, ficou decidido que ela passaria seis meses do ano com Hades no submundo e os outros seis meses com sua mãe, Deméter, na superfície.

Perséfone como Deusa das Ervas, Flores e Frutos

Perséfone era associada à fertilidade da terra e ao florescimento da vida natural. Sua presença na superfície do mundo simbolizava a vitalidade das plantas, a abundância das colheitas e a beleza da natureza. Como deusa das ervas e flores, ela era a personificação da renovação da terra, enquanto os frutos representavam a nutrição e a continuidade da vida.

Cena do curta-metragem A Deusa da Primavera, de Walt Disney, lançado em 1934. A animação apresenta uma adaptação do mito grego do Rapto de Perséfone, onde o deus dos mortos, Hades, é representado de forma estilizada como o diabo.

Quando Perséfone foi levada ao submundo, sua ausência impactou diretamente o ciclo natural das plantas e da fertilidade. Sem ela para inspirar a vitalidade da terra, a vegetação entrou em colapso, os campos ficaram estéreis, e os frutos deixaram de crescer. Isso intensificou a fome no mundo, já que a terra não produzia mais o necessário para alimentar a humanidade.

A Dor de Deméter e a Fome no Mundo

A perda de Perséfone devastou Deméter, que, como deusa da agricultura e das colheitas, abandonou suas responsabilidades em meio ao luto. Sua tristeza fez com que ela deixasse de nutrir a terra, resultando em um mundo frio e árido. Essa negligência divina foi ainda mais agravada pelo fato de que Perséfone, sendo a deusa dos frutos e ervas, não estava presente para inspirar o crescimento e a fertilidade.

Deméter percorreu a terra em busca de sua filha, mas, enquanto fazia isso, as colheitas murchavam, as sementes não germinavam e a fome se espalhava entre os humanos. Esse período de escassez e desolação reflete o inverno espiritual e físico causado pela ausência de Perséfone.

O Papel da Perséfone no Retorno da Abundância

Quando Perséfone finalmente pôde retornar à superfície por seis meses do ano, sua presença trouxe consigo a renovação da vida. As plantas voltaram a crescer, os campos floresceram, e os frutos começaram a amadurecer novamente. Sua volta simbolizava a primavera e o verão, as estações da abundância e da prosperidade.

A divisão de seu tempo entre o submundo e a superfície estabeleceu um equilíbrio necessário:

  • Durante os seis meses que ela passava com Hades, a natureza entrava em repouso (outono e inverno), refletindo o luto de Deméter.
  • Nos seis meses em que ela retornava, Deméter se alegrava, e a terra respondia com florescimento e fartura (primavera e verão).

Essa dualidade não só garantia a fertilidade cíclica, mas também ensinava aos humanos a aceitar os períodos de escassez como parte de um ciclo maior, no qual a renovação e a abundância sempre retornam.

A ausência de Perséfone no mundo dos vivos não foi apenas o luto de uma mãe pela perda de sua filha; foi a suspensão da própria vida. Com sua presença, flores nasciam, frutos amadureciam e a terra pulsava em harmonia. Mas, ao ser tragada pelo submundo, o mundo inteiro mergulhou na fome e na estagnação, como se o coração da natureza tivesse parado de bater.

Seu retorno, no entanto, não trouxe apenas a primavera de volta, mas também uma lição imortal: a vida é um ciclo de luz e sombra, de perda e renascimento. Perséfone, como rainha do submundo e deusa da fertilidade, tornou-se o equilíbrio personificado. Ela nos lembra que até nas profundezas da escuridão há a promessa do retorno, e que aceitar os períodos de inverno da alma é fundamental para que possamos florescer novamente. O mito, portanto, não é apenas uma explicação das estações do ano, mas uma ode à resiliência e à capacidade de renascer, mesmo depois das mais profundas quedas.

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